sexta-feira, janeiro 18, 2013

LEMA. José Alberto Oliveira.

 
Depois alguém morreu;
a estada tornou-se penosa,
o verão parecia não ter fim.
Era tempo de fazer malas
e projetos, de trocar
pautas por desacertos,
como, no último trimestre
do liceu, quem se apaixona
e arrepende da solidão que perdeu.
Assim chegou o outono
- depois alguém morreu.


O QUE DIZ O RATO. A. M. Pires Cabral.

 
Tenho um destino. Nasci
para roer o silêncio - e vou roê-lo
metodicamente

até que um dia se invertam os papéis
e seja o silêncio a roer-me a mim.

ALEX CORRETJA. Joaquim Cardoso Dias (O Preço das Casas).


hoje vou acreditar que ao escrever
o nome de um pássaro branco
o teu silêncio fascinado
se atira ao mar
com estas asas

QUE ME RESPONDAM. Eduardo Alves da Costa (Poeta e ficcionista brasileiro.







Disseram-me ontem que Deus morreu.
E eis-me aqui, sentado à soleira,
presa de uma pasmaceira pagã,
atado ao tronco do tempo.
Que posso eu, tão ínfimo, esperar
deste lugar ao qual acabo de chegar
se a vida, num giro furioso,
já me lança em direção à partida?
Para onde irei, penso eu, agora
que meu Pai morreu? Que deuses,
de barro ou lenha, me darão
a senha? Como saber em que
estação descer, se ao longo da força
que me leva é tudo treva?
A quem pedir que me diga
onde matar a sede, ou que estenda
a rede sobre o abismo deste súbito
ateísmo? Onde a sutil energia
capaz de me erguer de mim,
para, no momento do fim, fazer
pousar a minh'alma aos pés
(de quem, meu Deus?!).
E quem me dá a garantia de que,
libertos os elementos, uma súbita ventania
não nos arraste às baixas regiões,
onde legiões de demônios, à solta,
nos moerão eternamente?
Acaso resistirei à queima irremissível
do fusível graças ao qual me posso
acender? E que dizer da queda,
do retorno ao reino animal, sem coroa
num cetro real, pessoínha humilíssima,
réu de crimes inafiançáveis? Assim,
nu, sem paternidade? O que fazer
da vaidade, da imaginária grandeza,
da certeza de estar entre os justos?
Que me respondam os augustos autores
dessa morte, qual sorte me cabe
sob os céus, se Deus jaz, em meio
ao seu secto, com o intelecto cravado
no peito e um sorriso nos lábios eternos.

MAU DESPERTAR (Muitas Vozes). Ferreira Gullar (Poeta Brasileiro).

 
Saio do sono como
de uma batalha
travada em
lugar algum

Não sei na madrugada
se estou ferido
se o corpo
tenho
riscado
de hematomas

Zonzo lavo
na pia
os olhos donde
ainda escorrem
uns restos de treva.

ENQUANTO A NOITE. Joaquim Cardoso Dias (O Preço das Casas).

 
não tenhas medo é tudo o que sei fazer
duas das minhas mãos pelo teu cabelo enquanto a noite
essa idade onde descreveras o calor à volta de mim
e um pouco mais
sei por isso quem morre neste poema.

sábado, julho 30, 2011

OURO PRETO. Manuel Bandeira. LIRA DOS CINQUENT'ANOS.



Ouro branco! Ouro preto! Ouro podre! De cada
Ribeirão trepidante e de cada recosto
De montanha o metal rolou na cascalhada
Para o fausto d'El-Rei, para glória do imposto.

Que resta do esplendor de outrora? Quase nada:
Pedras... templos que são fantasmas ao sol-posto.
Esta agência postal era a Casa de Entrada...
Este escombro foi um solar... Cinza e desgosto!

O bandeirante decaiu - é funcionário.
Último sabedor da crónica estupenda,
Chico Diogo escarnece o último visionário.

E avulta apenas, quando a noite de mansinho
Vem, na pedra-sabão lavrada como renda,
- Sombra descomunal, a mão do Aleijadinho!

Mário Cláudio (DOIS POEMAS) [Livre adaptação e montagem por parte do autor do blogue].


(..) Não esquecemos nunca os litúrgicos gestos.
Dizemos: «Can I pour thy wine / while my hands tremble?»
Celebrantes, as ofertas do pacto por que nos
entregamos. Fragmentos de lama. Por que
nos festejamos, hoje e depois:
a caçada propícia,
o diadema de junquilhos.
Que teus dedos não aflorem a máscara, pois só
então surgirá o jaguar.
E guardemo-nos do rosto dos velhos.
Saibamos dispor os recipientes,
e as plantas curativas,
e aspergir a água sobre os cabelos.

(...)

(...) Um dia se volta, como sempre, a um vale de fetos e
pervincas para além da casa.
Um caminho nos dói sob os passos decorridos.
Quanto ao verão, sobe já nas radículas fundas.
O destino é este que temos, um só, entre verde e
azul, um destino: a vidraça aberta para as
colinas, a luz enfim na hera, um sumo de
laranja nos degraus de crepúsculo.
Amemos ainda: as bandeiras passam, vermelhas
como nunca.
Amanhã, as rolas, o sereno abrir de suas asas.
De suas asas, as asas.

Os dias certos. Quem nos toma como enfim nos
tomamos, desamparadamente, sicut umbra, nesta
terra que percorrem os noturnos animais?
A escassa chuva. Dallapiccola são as hastes de
vidro, o sono sicut tmbra.
Essa aspereza depois das primeiras bátegas.
Ontem, ainda, a turbulência dos ramos, a
ascensão do pólen.
Quem fala do que é frágil, quando as estrelas
imprimem seu eterno perfil sicut umbra e o
sangue flui nas artérias profundas?

«You think I am giving you keys. I am giving you
locks».

(...)

PEDIDO. Maria Teresa Horta. SÓ DE AMOR.


Deita-te aqui despido
à minha beira

Vem devagar dizer como me amas
põe-me os teus dedos
debaixo dos cabelos
e inventa tudo aquilo que me chamas

Deita-te aqui, o corpo sobre o meu
A boca, a língua, apenas desviadas

Deixa o meu beijo juntar-se
com o teu
e o meu ventre unir-se
à tua ilharga

Deita-te aqui despido
nos lençóis
onde conheço já o gozo vindo
E tudo faço quando tu
te vens
cobrindo com o teu corpo o meu gemido

(NO LADO ESQUERDO DA ALMA). Mário de Sá-Carneiro (19-05-1890:26-04-1916).



Eu não sou eu nem sou o outro.
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.

FELINUS. Inês Lourenço.


A Maria Tobias era preta
e branca. Na parte branca era
Tobias e era Maria na preta. Morou
connosco cinco anos. No sexto, numa
quinta-feira santa pôs-se a dormir
depois de um longo jejum. Ficaram-nos
nas mãos festas desabitadas e os poucos
haveres: uma malga, uma manta, um bebedouro,
que não lográmos enviar
para a nova morada.


A FURTIVA ALEGRIA. Inês Lourenço.


Acumulo
retratos desfocados
viagens dispersas danos
moratórias

Mas também a ciência animal
de lamber as feridas, a furtiva alegria
a caminho da noite para matar
a sede na corrente.


Hélder Moura Pereira.



Para tornar mais reais as minhas queixas
achei-me na pobreza das palavras. E na hipocrisia
cruel da mão que as escrevia achei-me
muito pouco saído da casca. Encostei o ouvido
ao teu coração. À volta era preciso um grande silêncio.
Temi não ouvir o teu vivo coração. O resto, a cabeça,
a razão, conheciam os porquês de tanta insatisfação.

Tu viste em mim um lamento, embora fosse, enfim,
não sei, um lamento lento, a descobrir. Passaram-se dias,
e noites, e anos, e eu tornei-me - mas só para ti - um boneco
de barro, um boneco de neve que a destra mão, de pá na mão,
desfigurasse. Farei um de gesso e de cimento
que fique aqui até morrer, saiba ele lamentar-se
do lamento que um dia mostrei e descobri.

Pense-se no instinto. Depois é só torcer a lógica
da direção. É essa a atração do meu amor.
Nunca perceberia nada. Da tua boca nunca ouvi
nada igual ou parecido. Isto era o que eu diria
ao meu amor se as coisas não fossem o que são.

Não era dia para grandes emoções e todavia o coração
é que sabia para que servia aquele dia. Sabia, logo
me dizia. Só eu o sentia, e tinha medo que alguém
me visse a sentir. Pensava que não era dia
para grandes emoções, mas era, dizia-me o coração.
Como já conheço este coração, sentei-me e fiquei
à espera, passei o dia num banco de jardim.


UM POEMA ME REZOU. Mia Couto. Escritor e Poeta Moçambicano.


Para que Deus me escrevesse
entortei as linhas do tempo

Passaram os sete dias do infinito
e Deus não me palavreou

Nessa espera,
sonhei de viés
e divinizei a palavra

Como Deus sempre me desendereçou
fui caindo em desabismos
desguarnecido de anjo
e em tudo quanto fui
só o demónio me guardou

Então me veio a suspeita:
Deus já não acredita em nada?

Até que, certa vez,
um poema me rezou
E assim me confortei:
a justa palavra
talvez restaure a crença de Deus em nós

Pedi licença à morte
pedi perdão à vida:
- mas não tive notícia
de quem eu queria me salvasse

E ainda hoje
só quem me reza:
as entortadas linhas da poesia

ARTIGO TREZE DA CONSTITUIÇÃO. José António Almeida.


«Cem euros, ou levas uma facada
- isto é Portugal em 2005
numa vila de província no sul:
o que principia na cama acaba
na sala do comandante do posto
da Guarda Nacional Republicana.

O que germina como crocitante
revoada de pássaros ao peito
do mais íntimo de corpos no coito
é relatado tintim por tintim
na sala do comandante do posto
da Guarda Nacional Republicana.

Isto que mais custava dizer ontem
desde que se nasceu até agora:
«sou homossexual, não me envergonho»,
proclamas com serena gravidade
na sala do comandante do posto
da Guarda Nacional Republicana.

Confessar a própria sexualidade
- que ninguém a ninguém é obrigado,
os olhos fixos por vezes nas armas
da bandeira de Portugal ao fundo
na sala do comandante do posto
da Guarda Nacional Republicana.

DE JOELHOS. Florbela Espanca.



«Bendita seja a Mãe que te gerou.»
Bendito o leite que te fez crescer.
Bendito o berço que te embalou
A tua ama, pra te adormecer!

Bendita essa canção que acalentou
Da tua vida o doce alvorecer...
Bendita seja a Lua, que inundou
De luz, a Terra, só para te ver...

Benditos sejam todos que te amarem,
As que em volta de ti ajoelharem
Numa grande paixão fervente e louca!

E se mais que eu, um dia, te quiser
Alguém, bendita seja essa Mulher,
Bendito seja o beijo dessa boca!




domingo, junho 19, 2011

UM ANO SEM JOSÉ SARAMAGO (16-11-1922:18-06-2010). Poema: Jorge de Sena (23 de agosto de 1958). Poema publicado na revista HÍFEN, nº 6, fevereiro 1991, Porto.


Dos homens pequeninos
libera nos Domine.


Dos homens pequeninos que são poetas
libera nos Domine.

Dos homens pequeninos que são poetas e críticos
libera nos Domine

(Devia ser proibido que alguém,
pretendendo-se a poeta e crítico,
tivesse menos de 10 cm da altura média
da raça a que pertença).

UM ANO SEM JOSÉ SARAMAGO (16-11-1922:18-06-2010). Poema: CÂNTICO NEGRO (José Régio).

«Vem por aqui» - dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem «vem por aqui»!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Porque me repetis: «vem por aqui»?
Prefiro escorregar nos becos lamaçentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga «vem por aqui»!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
-Sei que não vou por aí!

UM ANO SEM JOSÉ SARAMAGO (16-11-1922:18-06-2010). GET OVER IT: HE IS (INSIDE) US!

Um ano sem José Saramago. O homem que fez a diferença em Portugal, odiado por alguns, amado por muitos. O português que conquistou o coração da Espanha, mais amado por eles do que por nós. A Espanha, esse país fisicamente tão próximo e civilizacionalmente tão distante de nós, teve a capacidade de respeitar e entender a obra de Saramago. E desengane-se quem pensa que Saramago era menos provocador lá do que cá! Saramago não tinha duas faces. Aqui, neste país infetado de velhos do Restelo, apelidavam-no de arrogante e provocador (no sentido pejorativo da palavra); lá, a escassos 150 km daqui mas noutra galáxia civilizacional, respeitavam o seu génio provocador (no melhor sentido que a palavra encerra). Saramago dividiu os Portugueses e uniu os Espanhóis que o consideravam tão seu como Camilo José Cela, privilégio apenas concedido a alguns não nacionais, em regra hispânicos, como o peruano Mario Vargas Llosa ou  o mexicano Octavio Paz. Mesmo em relação a estes, não existe o carinho devotado, e que persiste, a José Saramago. Uma áurea romântica invadiu quase por instinto o coração dos espanhóis relativamente ao severo e racional Saramago, o homem que sendo obrigado a exilar-se do seu país foi acolhido pelo enorme coração de Pilar del Rio. Saramago não se exilou de Portugal em busca de sucesso e reconhecimento. Isso fazem-no agora, sem hesitar e quase sem pensar, milhares de jovens que não se reveem neste país supostamente moribundo. Pelo contrário. Saramago exilou-se por não suportar a mesquinhez provinciana da classe política portuguesa e, ao fazê-lo, tornou-se o primeiro prisioneiro de consciência da democracia portuguesa. Nunca renegou Portugal. Amou-o até ao fim. Nas suas obras fala sempre de países hipotéticos e cenários abstratos e, se nos revemos recalcados e humilhados pelas suas obras, é porque nos encaixamos muito bem e muito tristemente nesses retratos literários. Que melhor prova de amor para com um Povo e um País do que Viagem a Portugal? Ao contrário do Povo de Portugal, que Saramago amava e tão bem entendia, porque fazia intrínseca parte dele, irritava supostos democratas, tão distantes do Portugal profundo, definitivamente burocratas, tão bem colocados na vida e barricados no discurso político supostamente correto. Todos sabemos quem eles são.
Não sei por onde vou, só sei que não vou por aí, dizia José Régio. Saramago também. E não foi. E fez muito bem. E está, em definitivo, nos memoriais deste País. E, para irritação de alguns (e, repito, todos sabemos quem são), ainda está cá. Pilar del Rio demonstrou-o ontem, um ano depois da sua morte, ao colocar as suas cinzas em frente à Fundação José Saramago. Desenganem-se senhores burocratas recalcados e génios (politicamente) vingativos, profissionais do desdém e do escárnio político! Não, Saramago não desapareceu nem será esquecido nesta terra de políticos sem Povo que o renegaram e censuraram. Não poderia subir para as estrelas, se à terra pertencia! Habituem-se à ideia senhores!

Fernando Pessoa [ANTOLOGIA POÉTICA].


GATO QUE BRINCAS NA RUA
COMO SE FOSSE NA CAMA,
INVEJO A SORTE QUE É TUA
PORQUE NEM SORTE SE CHAMA.

BOM SERO DAS LEIS FATAIS
QUE REGEM PEDRAS E GENTES,
QUE TENS INSTINTOS GERAIS
E SENTES SÓ O QUE SENTES.

ÉS FELIZ PORQUE ÉS ASSIM,
TODO O NADA QUE ÉS É TEU.
EU VEJO-ME E ESTOU SEM MIM,
CONHEÇO-ME E NÃO SOU EU.

LIBERDADE. Sophia de Mello Breyner Andresen.


AQUI NESTA PRAIA ONDE
NÃO HÁ NENHUM VESTÍGIO DE IMPUREZA,
AQUI ONDE HÁ SOMENTE
ONDAS TOMBANDO ININTERRUPTAMENTE,
PURO ESPAÇO E LÚCIDA UNIDADE,
AQUI O TEMPO APAIXONADAMENTE
ENCONTRA A PRÓPRIA LIBERDADE.

domingo, outubro 03, 2010

SILENT RUNNING. Orchestral Manouevres In The Dark (OMD). Poema de Emily Dickinson (10-12-1830:15-05-1886).

video

God is indeed a jealous God -
He cannot bear to see
That we had rather not with Him
But will each other play.

Deus é decerto um Deus de ciúme -
Não pode suportar
Que preferimos não com Ele
Mas uns com os outros brincar.

TRIBUTO À AMIZADE. Poema: CÃO MORTO [A. M. Pires Cabral].


Fomos contemporâneos
este cão e eu

e eu sobrevivi-lhe

e isto é tremendo.

Emily Dickinson (10-12-1830:15-05-1886). Poetisa Norte-Americana.

The Brain - is wider than the Sky -
For - put them side by side -
The one the other will contain
With ease - and You - beside -

The Brain is deeper than the sea -
For - hold them - Blue to Blue -
The one the other will absorb -
As Sponges - Buckets - do -

The Brain is just the weight of God -
For - Heft them - Pound by Pound -
And they will differ - if they do -
As Syllable from Sound -
Mais vasto o Cérebro - que o Céu -
Pois - lado a lado os põe -
E um facilmente conterá
O outro - e a Ti - também -

Mais fundo o Cérebro que o mar -
Pois - mede-os - Azul a Azul -
E aquele o outro absorverá -
Tal como - a Esponja - o Balde -

Um peso igual, Cérebro e Deus -
Pois - Pesa-os - Libra a Libra -
E a distinção - se tal houver -
É como o Som da Sílaba -

sábado, outubro 02, 2010

LÁGRIMA DE PRETA. António Gedeão (1906-1997).

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.

VENCE NA VIDA QUEM DIZ QUE SIM. Chico Buarque.







Vence na vida quem diz sim
Vence na vida quem diz sim
Se te dói o corpo
Diz que sim
Torcem mais um pouco
Diz que sim
Se te dão um soco
Diz que sim
Se te deixam louco
Diz que sim
Se te babam no cangote
Mordem o decote
Se te alisam com o chicote
Olha bem pra mim
Vence na vida quem diz que sim
Vence na vida quem diz que sim

Se te jogam lama
Diz que sim
Pra que tanto drama
Diz que sim
Te deitam na cama
Diz que sim
Se te criam fama
Diz que sim
Se te chamam vagabunda
Montam na cacunda
Se te largam moribunda
Olha bem pra mim
Vence na vida quem diz que sim
Vence na vida quem diz que sim

Se te cobrem de ouro
Diz que sim
Se te mandam embora
Diz que sim
Se te puxam o saco
Diz que sim
Se te xingam a raça
Diz que sim
Se te incham a barriga
De feto e lombriga
Nem por isso compra a briga
Olha bem pra mim
Vence na vida quem diz que sim
Vence na vida quem diz que sim
 

segunda-feira, setembro 20, 2010

GAVETA DE PAPÉIS. José Luís Peixoto. Escritor e Poeta Português.

Encantar-te-ás com os poetas até conheceres um.
Com calças de poeta, camisa de poeta e casaco
de poeta, os poetas dirigem-se ao supermercado.

As pessoas que estão sozinhas telefonam muitas vezes,
por isso, os poetas telefonam muitas vezes. Querem
falar de artigos de jornal, de fotografias ou de postais.

Nunca dês demasiado a um poeta, arrepender-te-ás.
São sempre os últimos a encontrar estacionamento
para o carro, mas quando chove não se molham,

passam entre as gotas de chuva. Não por serem
mágicos, ou serem magros, mas por serem parvos.
A falta de sentido prático dos poetas não tem graça.

A CRIANÇA EM RUÍNAS. José Luís Peixoto.

quantas vezes apostaste a tua vida?
apostei a minha vida mil vezes.
perdeste tudo?
sim, perdi sempre tudo.

THE WHEEL (A RODA). THE TOWER (1928). William Butler Yeats (13-06-1885:28-01-1939).

Through winter-time we call on spring,
And through the spring on summer call,
And when abounding hedges ring
Declare that winter's best of all;
And after that there's nothing good
Because the spring-time has not come -
Nor know that what disturbs our blood
Is but its longing for the tomb.

No Inverno desejamos a Primavera,
E na Primavera invocamos o Verão,
E quando ressoam as abundantes sebes
Declaramos que o Inverno é melhor;
Depois nada há de bom
Porque a Primavera não chegou -
Não sabemos que essa inquietude que nosso sangue perturba
É apenas a sua nostalgia do túmulo.

CAMINHO (Na Pasta de Abel Annibal). CLEPSYDRA. Camilo Pessanha (07-09-1867:01-03-1926).

Tenho sonhos cruéis: n'alma doente
Sinto um vago receio prematuro.
Vou a medo na aresta do futuro,
Embebido em saudades do presente...

Saudades desta dor que em vão procuro
Do peito afugentar bem rudemente,
Devendo ao desmaiar sobre o poente
Cobrir-me o coração dum véu escuro!...

Porque a dor, esta falta d'harmonia,
Toda a luz desgrenhada que alumia
As almas doidamente, o céu d'agora,

Sem ela o coração é quasi nada:
- Um sol onde expirasse a madrugada,
Porque é só madrugada quando chora.

POEMA DO CRISTÃO. Jorge de Lima (23-04-1893:15-11-1953). Poeta Brasileiro.

Porque o sangue de Cristo
jorrou sobre os meus olhos,
a minha visão é universal
e tem dimensões que ninguém sabe.
Os milênios passados e os futuros
não me aturdem porque nasço e nascerei,
porque sou uno com todas as criaturas,
com todos os seres, com todas as coisas,
que eu decomponho e absorvo com os sentidos,
e compreendo com a inteligência
transfigurada em Cristo.
Tenho os movimentos alargados.
Sou ubíquo: estou em Deus e na matéria;
sou velhíssimo e apenas nasci ontem,
estou molhado dos limos primitivos,
e ao mesmo tempo ressoo as trombetas finais,
compreendo todas as línguas, todos os gestos, todos os signos,
tenho glóbulos de sangue das raças mais opostas.
Posso enxugar com um simples aceno
o choro de todos os irmãos distantes.
Posso estender sobre todas as cabeças um céu unânime e estrelado.
Chamo todos os mendigos para comer comigo,
e ando sobre as águas como os profetas biblícos.
Não há escuridão mais para mim.
Opero transfusões de luz nos seres opacos,
posso mutilar-me e reproduzir meus membros como as estrelas-do-mar,
porque creio na ressurreição da carne e creio em Cristo,
e creio na vida eterna, amém.
E tendo a vida eterna posso transgredir leis naturais:
a minha passagem é esperada nas estradas,
venho e irei como uma profecia,
sou espontâneo com a intuição e a Fé.
Sou rápido como a resposta do Mestre,
sou inconsútil como a sua túnica,
sou numeroso como a sua Igreja,
tenho os braços abertos como a sua Cruz despedaçada e refeita,
todas as horas, em todas as direções, nos quatro pontos cardeais,
e sobre os ombros A conduzo
através de toda a escuridão do mundo, porque tenho a luz eterna nos olhos
E tendo a luz eterna nos olhos sou o maior mágico:
ressuscito na boca dos tigres, sou alfa e omega, peixe, cordeiro, comedor de gafanhotos, sou ridículo, sou tentado, sou perdoado,
sou derrubado no chão e glorificado,
tenho mantos de púrpura, e de estamenha, sou burríssimo como São Cristóvão e sapientíssimo como São Tomás. E sou louco, inteiramente louco, para sempre, para todos os séculos, louco de Deus, amém.
E sendo a loucura de Deus, sou a razão das coisas, a ordem e a medida,
sou a balança, a criação, a obediência,
sou o arrependimento, sou a humildade,
sou o autor da paixão e morte de Jesus,
sou a culpa de tudo.
Nada sou.
Miserere mei, Deus, secundum magnam misericordiam tuam.