Quinta-feira, Dezembro 31, 2009

FELIZ ANO NOVO 2010 (HAPPY NEW YEAR 2010). O QUE TEM ISTO A VER COM O CINEMA EUROPEU?

Em 12 de dezembro de 2009 a Academia Europeia do Filme (European Film Academy) escolheu os intervenientes do audiovisual europeu que mais se destacaram em 2009, com os já tradicionais Prémios do Filme Europeu (European Film Awards). A cerimónia ocorreu na Alemanha em 12 de Dezembro de 2009 no mítico monumento Jahrhunderthalle Bochum, catedral que faz jus à pujança industrial da região metropolitana de Ruhr que em 2010 ostentará o título de Capital Europeia da Cultura.
Ao contrário do que é habitual nas cerimónias de atribuição dos Óscares nos Estados Unidos da América, não se ouviram gritos histéricos de fãs, desfilaram vestidos e jóias sem o mau gosto do show-off de exibição dos nomes dos criadores, ouviram-se várias línguas e sotaques, os apresentadores e os premiados discursaram com desenvoltura sem recorrer à graça fácil. Evitaram-se adjetivos de posse; evitou-se nomear os realizadores, os atores, os filmes ou os produtores com a palavra tão americana "Best". Em vez de "Best European Film 2009" a organização utulizou a expressão "European Film 2009", em vez de "Best European Actor 2009" usou-se a conjunção "European Actor 2009". Subentendido à ausência de "Best" está a presença subconsciente de "Our": "European Film 2009" será "Our European Film 2009". Que palavra tão bonita, "nosso", "our", "nuestro", "nôtre". Soa-me a Europa. "Best" é tão americano, tão comercial. Fiquem eles com os "best" deste mundo que nós ficamos com os nossos "our".
Um ambiente muito europeu, como não podia deixar de ser, ou não fosse esta a grande festa do cinema europeu. Europeu no conteúdo, com um glamour subtil sem ser agressivo, uma postura divertida sem deixar de ser educativa, mas europeu também na forma. E aqui, na forma, reside o "nosso" calcanhar de Aquiles. Não deixa de ser curioso, mas nada surpreendente, que não houve a corrida pelos direitos de transmissão por parte das televisões nacionais e europeias (ao contrário do que acontece com a cerimónia dos Óscares de Hollywood). A RTP cumpriu bem o seu papel de serviço público na noite de 31 de Dezembro de 2009 na RTP-2. Creio, no entanto, até porque a cerimónia foi um espetáculo gracioso e tecnologicamente apelativo, que teria sido uma excelente forma de entrar o ano de 2010 se a transmissão desta cerimónia se tivesse efetuado no canal principal da televisão pública (RTP-1) a partir das 23h: o número de espectadores seria bem maior que a audiência da RTP-2, o público teria verdadeiras alternativas de lazer e cultura à chafurdice do champanhe e das graçolas idiotas com que as televisões privadas nos brindam na passagem de ano.
Na cerimónia vimos Isabelle Huppert, visivelmente comovida mas tão sóbria, dissertando sobre a unidade europeia, traduzindo que o nosso idioma comum poderia, e deveria, ser o cinema europeu. É no cinema europeu que ouvimos falar as nossas línguas, as línguas da Europa que são, nessa pluralidade, a "nossa" identidade, a "nossa língua", a "língua da Europa". São muitas e são uma só, porque são todas nossas. Nossas! É bonito ouvir os premiados falarem inglês com os seus sotaques próprios, numa Babel de palavras e frases misturadas nas várias línguas. É bonito ouvir, nem que seja uma vez por ano, o sotaque do inglês britânico em oposição ao bombardeamento quotidiano da língua americana nos nossos ecrãs. É bonito, é bom e é importante. Todas as artes europeias, mas muito especialmente o cinema, reforçam a nossa identidade pan-europeia, unida pela diversidade de estéticas, de línguas e de visões do mundo. O cinema europeu não tem, nem precisa, de grandes meios. Tem uma estética própria que o distingue, que o torna nosso. E aqui entramos no cerne da questão. Quantos dos filmes premiados nesta festa do nosso cinema europeu, passarão nas salas de cinema europeias? Quantos de nós, europeus, conhecemos Tahar Rahim, Michael Haneke ou a revelações europeias Katalin Varga e David Kross? Claro, conhecemos Danny Boyle, Penelope Cruz, Pedro Almodovar ou Antonio Banderas, mas esses não são as exceções da ditadura das regras de Hollywood? Quantos de nós vimos um filme genuinamente europeu, sem concessões hollywoodescas, numa sala de cinema europeia em 2009? A Europa, a nossa Europa, o nosso projeto de Europa, não se constrói apenas com a burocracia de tratados políticos. Esses tornam-se obsoletos com o tempo. Foi assim com o Tratado de Roma, com o Tratado de Amsterdam, o Tratado de Nice e será assim com a pseudo-constituição que rege a nossa Europa na era global, o tão mediático Tratado de Lisboa. A Europa constrói-se com a emoção da autenticidade, com a parrticipação dos cidadãos não apenas na política mas também no que é autenticamente nosso. Como disse Isabelle Huppert nesta cerimónia, o cinema europeu é a língua europeia que não temos. Na verdade é (quase) tudo o que temos como genuinamente nosso, é o mosaico da diversidade que não pode esbater-se perante a visão monolítica de Hollywood.
A minha homenagem aos nossos premiados (e aos nossos não premiados) da Europa e, melhor ainda, na Europa. Acho que nunca me senti tão bem por dizer repetidamente a palavra "nosso". Acho que nunca passei um fim de ano, 31 de Dezembro, às 22:30 horas, tão próximo das primeiras badaladas de 2010, tão interessante, sozinho no meu quarto, escrevendo esta apologia do nosso cinema que nos define como europeus.
Os nossos vencedores foram os que se seguem (e todos os outros que não foram premiados mas contribuíram para a indústria do audiovisual europeu).
FILME EUROPEU 2009 (EUROPEAN FILM 2009): DAS WEISSE BAND (The White Ribbon). Co-produção entre Alemanha, Áustria, França e Itália. Argumento e Realização de Michael Haneke, produzido por Stefan Arndt, Veit Heiduschka, Michael Katz, Margaret Menegoz e Andrea Occhipinti.
REALIZADOR EUROPEU 2009 (EUROPEAN DIRECTOR 2009): Michael Haneke. Realizador de DAS WEISSE BAND (The White Ribbon).
ATOR EUROPEU 2009 (EUROPEAN ACTOR 2009): Tahar Rahim em UN PROPHETE (A Prophet).
ATRIZ EUROPEIA 2009 (EUROPEAN ACTRESS 2009): Kate Winslet em THE READER (Der Vorleser).
ARGUMENTO EUROPEU 2009 (EUROPEAN SCREENWRITER 2009): Michael Haneke pelo filme DAS WEISSE BAND (The White Ribbon).
PRÉMIO CARLO DI PALMA DE CINEMATOGRAFIA EUROPEIA 2009 (CARLO DI PALMA EUROPEAN CINEMATOGRAPHER AWARD 2009): Anthony Dod Mantle pelos filmes ANTICHRIST e SLUMDOG MILLIONAIRE.
PRÉMIO DE EXCELÊNCIA 2009 DA ACADEMIA EUROPEIA DE FILMES (EUROPEAN FILM ACADEMY PRIX D’EXCELLENCE 2009): Atribuído à sonografia do filme (Sound Design) UN PROPHETE (A Prophet) à equipa Brigitte Taillandier, Francis Wargnier, Jean-Paul Hurier e Marc Doisne.
COMPOSITOR EUROPEU 2009 (EUROPEAN COMPOSER 2009): Alberto Iglesias pelo filme LOS ABRAZOS ROTOS (Broken Embraces).
REVELAÇÃO EUROPEIA 2009 (EUROPEAN DISCOVERY 2009): Katalin Varga. Co-produção entre Roménia, Hungria e Reino Unido. Argumento e Realização de Peter Strickland, produzido por Tudor Giurgiu, Oana Giurgiu e Peter Strickland.
FILME EUROPEU DE ANIMAÇÃO 2009 (EUROPEAN FILM ACADEMY ANIMATED FEATURE FILM 2009): MIA ET LE MIGOU (Mia and the Migoo). Co-produção entre a França e a Itália. Realizado por Jacques-Rémy Girerd.
CURTA METRAGEM EUROPEIA 2009 (EUROPEAN FILM ACADEMY SHORT FILM 2009): POSTE RESTANTE de Marcel Lozinski.
PRÉMIO CARREIRA 2009 DA ACADEMIA EUROPEIA DO FILME (EUROPEAN FILM ACADEMY LIFETIME ACHIEVEMENT AWARD): Ken Loach.
DESEMPENHO EUROPEU (EUROPEAN ACHIEVEMENT IN WORLD CINEMA): Isabelle Huppert.
DOCUMENTÁRIO EUROPEU 2009 - PRÉMIO ARTE (EUROPEAN FILM ACADEMY DOCUMENTARY 2009 – Prix ARTE): THE SOUND OF INSECTS - Record of a Mummy (Suíça), por Peter Liechti.
PRÉMIO EUROPEU DE CO-PRODUÇÃO 2009 - PRÉMIO EURIMAGES (EUROPEAN CO-PRODUCTION AWARD – Prix EURIMAGES): Diana Elbaum e Jani Thiltges.
PRÉMIO EUROPEU DA CRÍTICA 2009 - PRÉMIO FIPRESCI (EUROPEAN FILM ACADEMY CRITICS AWARD 2009 – Prix FIPRESCI): Andrzej Wajda pelo filme TATARAK (Sweet Rush).
PRÉMIO DO PÚBLICO PARA MELHOR FILME EUROPEU 2009 (PEOPLE’S CHOICE AWARD FOR BEST EUROPEAN FILM): SLUMDOG MILLIONAIRE, Reino Unido. Realizado por Danny Boyle, argumento de Simon Beaufoy, produzido por Christian Colson.

Domingo, Dezembro 27, 2009

A METAMORFOSE. SONG TO THE SIRENE [THIS MORTAL COIL, ELISABETH FRAZER]

TUDO É FOI. António Gedeão.


Fecho os olhos por instantes.
Abro os olhos novamente.
Neste abrir e fechar de olhos
já todo o mundo é diferente.

Já outro ar me rodeia;
outros lábios o respiram;
outros aléns se tingiram
de outro Sol que os incendeia.

Outras árvores se floriram;
outro vento as despenteia;
outras ondas invadiram
outros recantos de areia.

Momento, tempo esgotado,
fluidez sem transparência.
Presença, espectro da ausência,
cadáver desenterrado.

Combustão perene e fria.
Corpo que a arder arrefece.
Incandescência sombria.
Tudo é foi. Nada acontece.

CORPO. Sophia de Mello Breyner Andresen.


CORPO SERENAMENTE CONSTRUÍDO
PARA UMA VIDA QUE DEPOIS SE PERDE
EM FÚRIA E EM DESENCONTRO VIVIDO
CONTRA A PUREZA INTEIRA DOS TEUS OMBROS.

PUDESSE EU RETER-TE NO ESPELHO
AUSENTE E MUDO A TODO OUTRO CONVÍVIO
RETER O CLARO NÓ DOS TEUS JOELHOS
QUE VÃO RASGANDO O VIDRO DOS ESPELHOS.

PUDESSE EU RETER-TE NESSAS TARDES
QUE DESENHAVAM A LINHA DOS TEUS FLANCOS
RODEADOS PELO AR AGRADECIDO.

CORPO BRILHANTE DE NUDEZ INTENSA
POR SUCESSIVAS ONDAS CONSTRUÍDO
EM COLUNAS ASSENTE COMO UM TEMPLO.

O CREPÚSCULO DA ÉPICA. Francisco Sardo.


proscrito há tanto o idioma da tristeza
que deus relevaria a impenitência
de quem remove o pó das ímpias chagas?

perdão nenhum pertence ao que perdeu
o dom do júbilo o timbre dos troféus
nem triunfou do cráter da cicuta

e se à noite aluídas na amargura
as traves da memória extenuada
de que súplica suspensa restaria
a imperfeição voraz desse momento?

da (in)diferença só veríssima do acen(t)o
contra a usura das sílabas erguendo
puríssima perplexa a lava deste espanto

JORGE DE SENA.


Amo-te muito, meu amor, e tanto
que, ao ter-te, amo-te mais, e mais ainda
depois de ter-te, meu amor. Não finda
com o próprio amor o amor do teu encanto.

Que encanto é o teu? Se continua enquanto
sofro a traição dos que, viscosos, prendem,
por uma paz da guerra a que se vendem,
a pura liberdade do meu canto,

um cântico da terra e do seu povo,
nesta invenção da humanidade inteira
que a cada instante há que inventar de novo,

tão quase é coisa ou sucessão que passa...
Que encanto é o teu? Deitado à tua beira,
sei que se rasga, eterno, o véu da Graça.

SE MEU DINHEIRO NÃO CHEGA. José Craveirinha. Poeta Moçambicano (1922-2003)


Se meu dinheiro não chega
para sentir o prazer de dar
a quem não tem nenhum
então de que me serve
de vez em quando
dar algum?
Por isso, Maria, me chamavas
numa ironia muito tua
Zé rei dos pobres.

ODE. Fernando Pessoa.


PARA SER GRANDE, SÊ INTEIRO;
NADA TEU EXAGERA OU EXCLUI.
SÊ TODO EM CADA COISA.
PÕE QUANTO ÉS NO MÍNIMO QUE FAZES.
ASSIM EM CADA LAGO A LUA TODA
BRILHA, PORQUE ALTA VIVE.

SUL. Eugénio de Andrade. Poeta Português.

Podia ser do feno,
ou dos limoeiros, mas não:
era da juventude, aquele aroma.
Atravessa o pátio,
entra-me pela varanda.
Tenho que defender-me desta lâmina aguda. Sobre
a garganta.

Quarta-feira, Dezembro 23, 2009

POEMA DE NATAL. Vinicius de Moraes. Tributo em Memória de Maria Leonor Henriques Gomes Rodrigues e Edmundo Gomes da Silva.


Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos -
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será a nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos -
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai -
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte -
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

CARTA DE NATAL A MURILO MENDES. Sophia de Mello Breyner Andresen.


Querido Murilo: será mesmo possível
Que você este ano não chegue no verão
Que seu telefonema não soe na manhã de Julho
Que não venha partilhar o vinho e o pão

Como eu só o via nessa quadra do ano
Não vejo a sua ausência dia-a-dia
Mas em tempo mais fundo que o quotidiano

Descubro a sua ausência devagar
Sem mesmo a ter ainda compreendido
Seria bom Murilo conversar
Neste dia confuso e dividido

Hoje escrevo porém para a Saudade
- Nome que diz permanência do perdido
Para ligar o eterno ao tempo ido
E em Murilo pensar com claridade -

E o poema vai em vez desse postal
Em que eu nesta quadra respondia
- Escrito mesmo na margem do jornal
Na Baixa - entre as compras do Natal

Para ligar o eterno e este dia.

Domingo, Dezembro 20, 2009

NÃO HÁ AQUI NADA QUE CHORAR. Bertolt Brecht. TRIBUTO A TIGER WOODS.


Não há aqui nada que chorar
Também para nós algo é fatal:
Isto não nos podia tocar,
E é-nos totalmente igual.
E se nos dão pancada,
Não é logo razão pra que nos fartemos:
Ai, se perdemos na jogada,
Prova que alguma coisa temos!

Sábado, Dezembro 19, 2009

TIGER WOODS: A HIPOCRISIA DO SONHO.

Quem não gostaria de ser como Tiger Woods? Jovem, glamouroso, dentes impecavelmente brancos, sorriso cativante, o homem-menino de ouro do desporto americano.
Empresas como Tag Heuer, Accenture, Gillette (Procter and Gamble), Gatorade, Nike tê-lo-ão percebido de imediato, ajudando a criar o mito. É impossível não reconhecê-las. Estão nos outdoors das nossas cidades, na imprensa escrita, na televisão. Procuram cativar consumidores e, para isso, socorrem-se de ícones globais facilmente reconhecíveis.
De repente, tudo mudou. Exceção à empresa Nike, que estoicamente (ainda) mantém o seu patrocínio a Tiger Woods, para as restantes a imagem do atleta deixou de convencer. De repente, num ápice, parece que o sorriso de Tiger Woods deixou de ser cativante, o seu pulso tornou-se indigno de um Tag Heuer, a sua pele tornou-se menos apetecível ao deslizar de uma Gillette, a sua garganta tornou-se imprópria para consumo de uma refrescante Gatorade, a sua imagem deixou de vender como a Accenture gostaria. Todas elas, que usaram o sorriso e o glamour de Tiger Woods até à exaustão enquanto lhes convinha, retiraram-lhe o tapete exatamente no pior período da sua vida.
Palavras e ações. As palavras destas empresas até são comoventes, mas as ações subsequentes são tudo menos recomendáveis. A Accenture, menos hipócrita, assume que o americano deixou de ser "o representante certo" após "as circunstâncias recentes", a Gatorade (PepsiCo) mente descaradamente ao assegurar que a decisão de rescindir o contrato já estava tomada há meses, e a Procter and Gamble desvincula-se referindo, no entanto, que "perante uma situação difícil e infeliz, respeitamos e apoiamos o que Tiger fez para recuperar a confiança da sua família, amigos e admiradores" (Michael Norton, porta-voz de uma das empresas do grupo). Bem, se havia dúvidas da insensibilidade do capitalismo global, ficámos esclarecidos! Para estas empresas as palavras são apenas para ser empregues e estudadas ao milímetro em outdoors fascinantes, as ações que importam resumem-se às ações financeiras. O importante é usar a imagem para vender o sonho.
A questão chegou inclusivamente até à política americana: um dia depois de a consultora Nielsen ter anunciado que os canais de televisão dos EUA não transmitiriam nem mais um anúncio com o atleta no horário nobre, o deputado democrata Joe Baca, da Califórnia, vem retirar o seu apoio a um projeto para homenagear Woods.
Afinal o que aconteceu, foi apenas isto: Tiger Woods cometeu o crime de ser apenas um ser humano em que, desde o acidente de viação de 27 de Novembro deste ano, a sua vida se vem revelando um calvário de atribulações. Os tablóides, ávidos de sensacionalismo, esfregam as mãos de contentes com a subida das vendas perante a desgraça do desportista: para uns, o acidente teria sido causado por uma suposta discussão entre Woods e sua mulher, a ex-modelo sueca Elin Nordegren; para outros, o acidente teria resultado de uma noite de excessos e uma combinação imprudente de álcool e medicamentos (Vicodin e Ambien). Poucos dias depois, mesmo nos mídias ditos respeitáveis, aparecem rumores de um caso extra-conjugal. A amante seria Rachel Uchitel, acusada de providenciar mulheres para satisfazer as fantasias sexuais de Woods. O efeito dominó foi avassalador. Atentas a algum rendimento extra e ansiosas pelos seus 15 minutos de fama que pudessem obter da avidez da imprensa, as hienas esfomeadas aparecem prontas para satisfazerem os apetites cruéis do cidadão comum por escândalos. Primeiro, uma empregada de mesa, Jaimee Grubbs, vem a público anunciar as suas intímas virtudes alegando ter tido um caso com Tiger Woods. Seguem-se-lhe várias outras, certamente muito puras e castas, desde normalíssimas donas de casa insatisfeitas a atrizes de filmes para adultos e ex-modelos da Playboy, que, de repente, vá-se lá saber porquê, ganham coragem para assumir publicamente terem dormido com Woods quando ele já era casado (inclusivamente quando a sua mulher estava grávida, dizem algumas). A lista da insensatez parece não ter fim.
Perante este cenário, o número um mundial do golfe, vê-se obrigado a anunciar o seu afastamento "por tempo indeterminado" do desporto para ser "um melhor marido, pai e pessoa", segundo informação na sua página oficial na internet.
A estupidez humana tem destas coisas. Criamos modelos esquecendo que eles são humanos como nós e não lhes perdoamos quando estes desmentem pelas suas ações o caráter divino que lhes atribuimos. Somos cruéis com os ícones que criamos. Admiramos as suas conquistas e invejamos os seus estilos de vida, idolatramo-os como deuses e, ao fazê-lo, esquecemos que, como nós, também estes indivíduos têm direito a momentos bons e momentos maus, como nós têm direito a ser felizes ou a sofrer em paz, como nós também erram e têm direito às suas convicções, como nós têm direito à sua intimidade.
Eu não tenho nenhum relógio Tag Heuer. Agora, mais do que nunca, jamais colocarei essa sofisticação do design e da tecnologia no meu pulso, pensarei duas vezes antes de beber uma Gatorade nos meus treinos e tratarei de arranjar alternativas à Gilette para o meu barbear. Se, ao tomarem a atitude de desvinculação, o objetivo destas empresas era manterem consumidores estão muito enganadas! A mim já me perderam com os ditâmes da minha consciência e o poder das minhas escolhas individuais! Viva a Omega, viva a Wilkinson, viva a Sumol!
Porque há vida para além do glamour, e porque a vida não é um sonho, no meio desta tragédia grega espero sinceramente que Tiger Woods recupere a sua vida pessoal e profissional tão breve quanto a sua determinação o permita. De preferência, sem Gillete e sem Tag Heuer!

Sexta-feira, Dezembro 11, 2009

Terça-feira, Dezembro 08, 2009

PROCURA-SE UM AMIGO. Vinicius de Moraes. Poeta, Escritor, Pensador e Ensaísta Brasileiro.


Procura-se um amigo.
Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração.
Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir.
Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa.
Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.
Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados.
Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa.
Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoas tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.
Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo.
Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância.
Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.
Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo.
Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.

DOM SEBASTIÃO, REI DE PORTUGAL. Fernando Pessoa. MENSAGEM.


Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

Segunda-feira, Dezembro 07, 2009

Poema. VICTOR HUGO.


Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.

Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.
Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconsequentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.

E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.

Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.

Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.

Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.

Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.

Desejo que você descubra ,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.
Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você se sentirá bem por nada.

Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.
Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga `Isso é meu`,
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.

Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.
Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.

E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar.

PEQUENO POEMA. Sebastião da Gama.


Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.

Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...

Pra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...

ESTA EXAUSTÃO DA FORMA. Licastro. OS MECANISMOS DA ALEGRIA.


Morno dia de outono
silencioso e triste,
no refúgio breve e doce
do teu seio
às tuas mãos me entrego
- ainda sem saber
se é morno o dia
ou se mais morna ainda
esta memória
vinda dos antigos inenarráveis
dias de outono de infância mãe
silenciosa deste pranto,
incomensurável infância
tão distante
e tão presente ainda no arrastar do verso, -
ao cume lento onde a forma aspira.

morno dia de outono
carpe die.

LÁGRIMA, GOTA LÁGRIMA (OU: TODAS DESPEDIDAS DO MUNDO). Ondjaki. Poeta, Escritor e Ensaísta Angolano.


lágrima
é uma sensação que escorrega.
mundo está seco de coisas e trans-sensações
assim a lágrima presta-se
a desressequir o mundo.
porque:
mundo está duro;
mundo está pedinchar molhadezas
que só amor tem num bolso;
mundo está ainda grande e
tão pequenino já.
lágrima, afinal,
é uma carinhosa correção do mundo
e tem pontes com a amizade.
porque:
sinónimo sincero de amizade
é celebração.
assim mesmo, ela, húmida. bem húmida.

O GARROTE. Fernando Assis Pacheco.


Ribeiras limpas acudi-me.
Vou ficar vivo encostado
a esta memória de trampa.
Os meus olhos já foram brilhantes.
Sei fazer alguns versos mas nem sempre.
Eu narrador me confesso.
A guerra lixou tudo.

É curioso como se bebia
água podre.
Não falando no vinho, muito.
Durante os ataques doía-me um joelho.
Estou pronto, pensei.
Ninguém me conhece.
Os ratos são felizes.

Vocês não sabem como se perde a tusa.
De resto não serve para nada.
A melhor noite que eu tive
em Nambuangongo foi com uma garrafa de whisky.
Sei fazer versos mas doem.
Ninguém me conhecia dentro do arame.

O único joelho decente de Angola
embebeda-se no Norte.
Vou para escrever e paro.
Deixei-me disso.
Sou feiíssimo ao espelho.
Recordação súbita duma litografia
castelhana: o garrote.
Não vos perdoo.

Suponho que a violência tem os dias contados.
Se não é assim é parecido.
Eu vi-os sair do quartel
com as alpergatas nas últimas.
Vai ali o Ocidente, escrevi.
Vai beber água podre.

E depois há um que pisa uma armadilha.
Houve um que pisou uma armadilha!
Sei fazer versos. Ou seja: nada.
O coto em sangue.
Neste ponto o narrador sofreia a imaginação.
Ninguém disse que me conhecia.
Conheço um rato, está em cima duma viga.
Serve para a gente olhar.

POEMA. António José Forte.


Na paisagem que amanhece
jaz o corpo de ninguém

maior do que a noite
e os olhos que ela tem

jaz um pouco de lado
voltado para a lua

coberto de nada
na paisagem nua

nunca teve um nome
não espera o Além

o corpo que jaz
e é de ninguém.

PORTUGAL. António Manuel Couto Viana.


Este mendigo, outrora, era um menino d'oiro,
Teve um Império seu, mas deixou-se roubar.
Hoje, não sabe já se é castelhano ou moiro
E vai às praias ver se ainda lhe resta o mar!

O VELHINHO. Gonçalves Crespo. NOTURNOS.


Aquele que ali vai triste e cansado
E mais tremente que os juncais do brejo,
Foi outrora o mais belo e mais amado
Entre os moços do antigo lugarejo.

Nas fitas desse lábio desmaiado
Quantas mulheres trémulas de pejo
Não sorveram os néctares do beijo
Dos trigais sobre o leito perfumado!

Hoje é velhinho, e fala dos franceses
Aos rapazes da escola e às raparigas,
que não cansam de ouvi-lo... as mais das vezes

Sobre a ponte, sozinho, ouve as cantigas
Das que lavam no rio, e o olhar estende
Ao Sol que ao longe na agonia esplende...

TENHAM PIEDADE DE NÓS. José Lobo Antunes. EXCERTO DE CRÓNICA DE JOSÉ LOBO ANTUNES NA REVISTA VISÃO [Nº 792, 28 de Maio de 2008, pg 22]. Métrica Livremente Adaptada pelo Autor do Blogue.


(...) CONHECES ALGUM ARTISTA QUE NÃO SOFRA,
CONHECES ALGUM ARTISTA FELIZ?
TODOS ELES ATORMENTADOS, CONTRADITÓRIOS,
NUM DESESPERO E NUMA ANGÚSTIA CONSTANTES,
MESMO SOB O HUMOR, SOB A ALEGRIA.

OS MEUS QUERIDOS RUSSOS,
TOLSTOI, GOGOL, TCHEKOV.
SCOTT FITZGERALD,
QUE SUSTENTAVA NÃO SER POSSÍVEL ESCREVER A BIOGRAFIA DE UM ESCRITOR
PORQUE ELE É MUITOS.

(...) A BELEZA QUE NOS DÃO SAIU-LHES DO PELO,
RASGARAM A ALMA POR ELA.
(...) COMO É POSSÍVEL COEXISTIREM
NUM SÓ HOMEM OU NUMA SÓ MULHER
TANTO SOFRIMENTO E TANTA EXALTAÇÃO?
(...) QUERO MORRER DE CANETA NA MÃO,
MEU DEUS FAZEI COM QUE EU MORRA DE CANETA NA MÃO
A LUTAR COM AS EMOÇÕES,
AS PALAVRAS.
A LUTAR COM O ANJO,
POBRE JACOB QUE SOU.

A GENTE DEIXA A PELE NISTO.
SE ALGUMA GLÓRIA POSSO TER É ESSA:
NÃO OS PRÉMIOS, O RECONHECIMENTO, O LOUVOR.
APENAS A SINA DE UMA VIDA
DEDICADA A TENTAR ILUMINAR
O MUNDO COM A MINHA LANTERNINHA.
POR MUITO GRANDE QUE SEJA NÃO PASSA DE UMA LANTERNINHA.

(...) HABITAMOS O MONTE DOS VENDAVAIS,
A GUERRA E PAZ,
AS MENINAS DE VELAZQUEZ,
OS TRIOS DE BEETHOVEN,
O DANÚBIO AZUL,
E AO HABITAR O IMENSO PAÍS QUE ESSAS OBRAS SÃO,
VENCEMOS O TEMPO E TORNAMO-NOS IMORTAIS.

(...) FIZERAM DA GENTE SERES ENORMES,
APESAR DE BICHOS DA TERRA TÃO PEQUENOS COMO NO VERSO DE CAMÕES.
ESTA É A DITOSA PÁTRIA MINHA AMADA: NUNCA LI TAL
COISA SEM ME COMOVER.
PARECE TÃO SIMPLES, NÃO É?
ESTA É A DITOSA PÁTRIA MINHA AMADA:
REPAREM NA MÃO QUE É NECESSÁRIA PARA CHEGAR A ISTO.
(...) O QUE O HOMEM SOFREU A VIDA INTEIRA E É
VERDADE.

SOFRERAM A VIDA INTEIRA,
MAS É GRAÇAS A ELES QUE ESTAMOS VIVOS.
É GRAÇAS A ELES QUE SOMOS DIGNOS DO REINO DOS
CÉUS, QUE TROUXERAM PARA A TERRA.
E OS POMBOS DE PARIS A OLHAREM PARA MIM DE
BANDA, COM VONTADE DE ME ENGOLIREM.
POR FAVOR, NÃO ME ENGULAM POR ENQUANTO:
TANTOS LIVROS EM MIM À ESPERA DE SEREM ESCRITOS.