Em 12 de dezembro de 2009 a Academia Europeia do Filme (European Film Academy) escolheu os intervenientes do audiovisual europeu que mais se destacaram em 2009, com os já tradicionais Prémios do Filme Europeu (European Film Awards). A cerimónia ocorreu na Alemanha em 12 de Dezembro de 2009 no mítico monumento Jahrhunderthalle Bochum, catedral que faz jus à pujança industrial da região metropolitana de Ruhr que em 2010 ostentará o título de Capital Europeia da Cultura.
Ao contrário do que é habitual nas cerimónias de atribuição dos Óscares nos Estados Unidos da América, não se ouviram gritos histéricos de fãs, desfilaram vestidos e jóias sem o mau gosto do show-off de exibição dos nomes dos criadores, ouviram-se várias línguas e sotaques, os apresentadores e os premiados discursaram com desenvoltura sem recorrer à graça fácil. Evitaram-se adjetivos de posse; evitou-se nomear os realizadores, os atores, os filmes ou os produtores com a palavra tão americana "Best". Em vez de "Best European Film 2009" a organização utulizou a expressão "European Film 2009", em vez de "Best European Actor 2009" usou-se a conjunção "European Actor 2009". Subentendido à ausência de "Best" está a presença subconsciente de "Our": "European Film 2009" será "Our European Film 2009". Que palavra tão bonita, "nosso", "our", "nuestro", "nôtre". Soa-me a Europa. "Best" é tão americano, tão comercial. Fiquem eles com os "best" deste mundo que nós ficamos com os nossos "our".
Um ambiente muito europeu, como não podia deixar de ser, ou não fosse esta a grande festa do cinema europeu. Europeu no conteúdo, com um glamour subtil sem ser agressivo, uma postura divertida sem deixar de ser educativa, mas europeu também na forma. E aqui, na forma, reside o "nosso" calcanhar de Aquiles. Não deixa de ser curioso, mas nada surpreendente, que não houve a corrida pelos direitos de transmissão por parte das televisões nacionais e europeias (ao contrário do que acontece com a cerimónia dos Óscares de Hollywood). A RTP cumpriu bem o seu papel de serviço público na noite de 31 de Dezembro de 2009 na RTP-2. Creio, no entanto, até porque a cerimónia foi um espetáculo gracioso e tecnologicamente apelativo, que teria sido uma excelente forma de entrar o ano de 2010 se a transmissão desta cerimónia se tivesse efetuado no canal principal da televisão pública (RTP-1) a partir das 23h: o número de espectadores seria bem maior que a audiência da RTP-2, o público teria verdadeiras alternativas de lazer e cultura à chafurdice do champanhe e das graçolas idiotas com que as televisões privadas nos brindam na passagem de ano.
Na cerimónia vimos Isabelle Huppert, visivelmente comovida mas tão sóbria, dissertando sobre a unidade europeia, traduzindo que o nosso idioma comum poderia, e deveria, ser o cinema europeu. É no cinema europeu que ouvimos falar as nossas línguas, as línguas da Europa que são, nessa pluralidade, a "nossa" identidade, a "nossa língua", a "língua da Europa". São muitas e são uma só, porque são todas nossas. Nossas! É bonito ouvir os premiados falarem inglês com os seus sotaques próprios, numa Babel de palavras e frases misturadas nas várias línguas. É bonito ouvir, nem que seja uma vez por ano, o sotaque do inglês britânico em oposição ao bombardeamento quotidiano da língua americana nos nossos ecrãs. É bonito, é bom e é importante. Todas as artes europeias, mas muito especialmente o cinema, reforçam a nossa identidade pan-europeia, unida pela diversidade de estéticas, de línguas e de visões do mundo. O cinema europeu não tem, nem precisa, de grandes meios. Tem uma estética própria que o distingue, que o torna nosso. E aqui entramos no cerne da questão. Quantos dos filmes premiados nesta festa do nosso cinema europeu, passarão nas salas de cinema europeias? Quantos de nós, europeus, conhecemos Tahar Rahim, Michael Haneke ou a revelações europeias Katalin Varga e David Kross? Claro, conhecemos Danny Boyle, Penelope Cruz, Pedro Almodovar ou Antonio Banderas, mas esses não são as exceções da ditadura das regras de Hollywood? Quantos de nós vimos um filme genuinamente europeu, sem concessões hollywoodescas, numa sala de cinema europeia em 2009? A Europa, a nossa Europa, o nosso projeto de Europa, não se constrói apenas com a burocracia de tratados políticos. Esses tornam-se obsoletos com o tempo. Foi assim com o Tratado de Roma, com o Tratado de Amsterdam, o Tratado de Nice e será assim com a pseudo-constituição que rege a nossa Europa na era global, o tão mediático Tratado de Lisboa. A Europa constrói-se com a emoção da autenticidade, com a parrticipação dos cidadãos não apenas na política mas também no que é autenticamente nosso. Como disse Isabelle Huppert nesta cerimónia, o cinema europeu é a língua europeia que não temos. Na verdade é (quase) tudo o que temos como genuinamente nosso, é o mosaico da diversidade que não pode esbater-se perante a visão monolítica de Hollywood.
A minha homenagem aos nossos premiados (e aos nossos não premiados) da Europa e, melhor ainda, na Europa. Acho que nunca me senti tão bem por dizer repetidamente a palavra "nosso". Acho que nunca passei um fim de ano, 31 de Dezembro, às 22:30 horas, tão próximo das primeiras badaladas de 2010, tão interessante, sozinho no meu quarto, escrevendo esta apologia do nosso cinema que nos define como europeus.
Os nossos vencedores foram os que se seguem (e todos os outros que não foram premiados mas contribuíram para a indústria do audiovisual europeu).
Os nossos vencedores foram os que se seguem (e todos os outros que não foram premiados mas contribuíram para a indústria do audiovisual europeu).
FILME EUROPEU 2009 (EUROPEAN FILM 2009): DAS WEISSE BAND (The White Ribbon). Co-produção entre Alemanha, Áustria, França e Itália. Argumento e Realização de Michael Haneke, produzido por Stefan Arndt, Veit Heiduschka, Michael Katz, Margaret Menegoz e Andrea Occhipinti.
REALIZADOR EUROPEU 2009 (EUROPEAN DIRECTOR 2009): Michael Haneke. Realizador de DAS WEISSE BAND (The White Ribbon).
ATOR EUROPEU 2009 (EUROPEAN ACTOR 2009): Tahar Rahim em UN PROPHETE (A Prophet).
ATRIZ EUROPEIA 2009 (EUROPEAN ACTRESS 2009): Kate Winslet em THE READER (Der Vorleser).
ARGUMENTO EUROPEU 2009 (EUROPEAN SCREENWRITER 2009): Michael Haneke pelo filme DAS WEISSE BAND (The White Ribbon).
PRÉMIO CARLO DI PALMA DE CINEMATOGRAFIA EUROPEIA 2009 (CARLO DI PALMA EUROPEAN CINEMATOGRAPHER AWARD 2009): Anthony Dod Mantle pelos filmes ANTICHRIST e SLUMDOG MILLIONAIRE.
PRÉMIO DE EXCELÊNCIA 2009 DA ACADEMIA EUROPEIA DE FILMES (EUROPEAN FILM ACADEMY PRIX D’EXCELLENCE 2009): Atribuído à sonografia do filme (Sound Design) UN PROPHETE (A Prophet) à equipa Brigitte Taillandier, Francis Wargnier, Jean-Paul Hurier e Marc Doisne.
COMPOSITOR EUROPEU 2009 (EUROPEAN COMPOSER 2009): Alberto Iglesias pelo filme LOS ABRAZOS ROTOS (Broken Embraces).
REVELAÇÃO EUROPEIA 2009 (EUROPEAN DISCOVERY 2009): Katalin Varga. Co-produção entre Roménia, Hungria e Reino Unido. Argumento e Realização de Peter Strickland, produzido por Tudor Giurgiu, Oana Giurgiu e Peter Strickland.
FILME EUROPEU DE ANIMAÇÃO 2009 (EUROPEAN FILM ACADEMY ANIMATED FEATURE FILM 2009): MIA ET LE MIGOU (Mia and the Migoo). Co-produção entre a França e a Itália. Realizado por Jacques-Rémy Girerd.
CURTA METRAGEM EUROPEIA 2009 (EUROPEAN FILM ACADEMY SHORT FILM 2009): POSTE RESTANTE de Marcel Lozinski.
PRÉMIO CARREIRA 2009 DA ACADEMIA EUROPEIA DO FILME (EUROPEAN FILM ACADEMY LIFETIME ACHIEVEMENT AWARD): Ken Loach.
DESEMPENHO EUROPEU (EUROPEAN ACHIEVEMENT IN WORLD CINEMA): Isabelle Huppert.
DOCUMENTÁRIO EUROPEU 2009 - PRÉMIO ARTE (EUROPEAN FILM ACADEMY DOCUMENTARY 2009 – Prix ARTE): THE SOUND OF INSECTS - Record of a Mummy (Suíça), por Peter Liechti.
PRÉMIO EUROPEU DE CO-PRODUÇÃO 2009 - PRÉMIO EURIMAGES (EUROPEAN CO-PRODUCTION AWARD – Prix EURIMAGES): Diana Elbaum e Jani Thiltges.
PRÉMIO EUROPEU DA CRÍTICA 2009 - PRÉMIO FIPRESCI (EUROPEAN FILM ACADEMY CRITICS AWARD 2009 – Prix FIPRESCI): Andrzej Wajda pelo filme TATARAK (Sweet Rush).
PRÉMIO DO PÚBLICO PARA MELHOR FILME EUROPEU 2009 (PEOPLE’S CHOICE AWARD FOR BEST EUROPEAN FILM): SLUMDOG MILLIONAIRE, Reino Unido. Realizado por Danny Boyle, argumento de Simon Beaufoy, produzido por Christian Colson.












































