Terça-feira, Setembro 07, 2010

ACERCA DE JOSÉ SARAMAGO. ENTREVISTA DE ANTÓNIO SOUSA LARA À RÁDIO ANTENA 1 (UM CRISTÃO QUE NÃO SE ARREPENDE).



No próprio dia da morte de José Saramago (18 de junho de 2010) Sousa Lara, que a história já se encarregou de emparedar com o rótulo de maior censor político dos primeiros 40 anos de democracia portuguesa pós 25 de abril, demonstrou, em entrevista de poucos minutos à rádio pública Antena 1, a sua cristandade e portugalidade. Um homem sem sentido de universalidade amarrado que está aos seus medos (é ele quem o diz), aos julgamentos (um julgador sem mérito que tem medo de ser julgado numa pretensa vida no além) e à ficção das suas verdades (tem direito a tê-las, não tem é direito de impô-las). Um homem fundamentalista, perfeitamente caracterizado em Intermitências da Mlorte, (possivelmente não se deu ao trabalho de ler) que, no dia da própria morte de José Saramago e com o seu féretro ainda quente, insensível à dor de todo um Povo (em luto oficial e nacional, recorde-se), fala de reincidência (isto lembra-me os campos de reeducação na República Popular da China, no Irão ou na Coreia do Norte), de agressividade (sendo ele próprio agressivo no breve discurso), de obrigações (parece que não nos deviamos espantar, na sua ótica) e de brincadeiras (sim, este discurso nem a brincar). As declarações de Sousa Lara, realça-se, foram feitas no período de três dias de luto oficial do País, à rádio pública Antena 1. Felizmente não vivemos num Estado fundamentalista como o Irão; aqui o contraditório é legítimo, mesmo quando baseado num discurso incoerente como o que se lerá a seguir. Não se pode é pretender ficar impune à crítica perante a cegueira, sobretudo num homem como Sousa Lara, ilustre Professor Catedrático em Ciência Política e habituado ao contraditório académico, do qual se esperava mais contenção e sabedoria na forma como se exprime perante aqueles que já não estão cá para se defender. Para além do mau gosto político de não se ter reservado ao silêncio naquele dia tão peculiar, o discurso de Sousa Lara é um monólogo repetitivo (mais do mesmo) que não traz nada de novo. O Povo Português já sabe o que Sousa Lara pensa, não é necessário aproveitar os poucos quinze segundos de fama de que vai dispondo para se repetir até à exaustão e se enterrar intelectualmente ainda mais. Saramago já não está fisicamente presente entre nós como célula individual para se defender, até porque, perante estas declarações não é Saramago que tem de se defender, é quem as profere. Alma mater intelectual de um Povo que tão bem soube entender, mesmo quando, como Camões, foi obrigado ao desterro para outras paragens mais cosmopolitas e abertas à diferença, José Saramago, agora sentado à direita de um Pai que não percebia, deve estar sorrindo, com complacência, agora como então, imune ao despautério intelectual e, talvez, quem sabe, segredando-lhe, "Pai, perdoai-lhes que eles não sabem o que fazem". De seguida, a transcrição literal do referido discurso de um homem politicamente amargo que, pelas piores razões, merece ser catapultado para o Vale das Sombras da história. Colocar as estórias de Sousa Lara nos anais da história é, por muito que nos custe, um preço a pagar em nome de um Povo que tem orgulho de si próprio mesmo quando a esperança se afunda. A partir de hoje Sousa Lara pode fazer todos os discursos, políticos ou não, que quiser; serão, como ele já decerto o percebeu, meros monólogos sem conteúdo. Intelectualmente falando, no sentido interpretativo e plural que a intelectualidade exige, morreu à nascença, por muitas cátedras que ocupe. Como escreve Marianne Moore (15-11-1887:05-02-1972), poetisa modernista norte-americana, em "Elephants", Embora o branco seja a cor da veneração e da lamentação, ele não está aqui para venerar e é demasiado sábio para se lamentar - prisioneiro da vida mas acomodado. Com a tromba maciçamente enrolada - o sinal de derrota do elefante - ele resistiu, mas agora é o produto da razão. A tromba direita parece dizer: quando a esperança falha surge o ânimo.
Segue-se o monólogo cristão de Sousa Lara em reação à morte de Saramago; por razões de critério está em transcrição literal (a democracia tem destas coisas).
"A morte de qualquer pessoa é sempre triste ehhh, não é, porque as pessoas, eu não me posso congratular, nem me congratulo, ehhh, naturalmente com a morte de ninguém, não é, ehhh sobretudo, enfim, de uma pessoa com o perfil do senhor José Saramago, como sou católico e acredito na vida além da morte, ehhh, tenho sempre muito medo que as pessoas que cometem determinados atos, enfim, tenham depois um julgamento mais pesado mesmo que acreditem que não existe nada a seguir. Com a religião não se brinca, mais a mais com a religião maioritária do Povo Português. Portanto, isso não tem negociação possível. Um senhor que escreve o que este senhor resolveu escrever, e é reincidente, porque este livro Caim ainda é mais agressivo. Uma pessoa que faz isto está à espera que um Governo de direita o proponha para o Prémio Europeu da Literatura? Nem a brincar! Eu acho que nem a brincar! Não percebo como é que as pessoas ficam espantadas com a minha atitude. Deviam ficar espantadas se eu fizesse o contrário!"

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