Sábado, Setembro 04, 2010

DICIONÁRIO IMPERFEITO (JOSÉ SARAMAGO E AGUSTINA BESSA-LUÍS).


Agustina Bessa-Luís, de forma sintética mas aglutinadora, como é próprio das criaturas geniais, disserta em Dicionário Imperfeito sobre inúmeros temas. Fala de Portugal e de Portugalidade, como não podia deixar de ser. Ensaia sobre Amor, Ódio e Paixões, Maiorias e Minorias. Sobre Governos e Desgovernos, Opressão e Liberdade, Pátrias e Mátrias, Reis e Raínhas, República e Monarquia, Revoluções e Regressos, Sabedoria e Sinceridade, Inveja e Simulação.  Tempo e Tédio, Vida e Morte, Guerra e Paz, Tecnologia e Sobriedade, Soberba e Humildade, Inteligência e Tecnologia, está tudo lá.
Fala de tudo isto e muito mais.
Fala de denominadores e de divisores comuns, de grandeza e de pequenez, do importante e do acessório, do princípio e do fim.
Em pouco mais de 300 páginas fala, escreve e obriga-nos a pensar sobre quase tudo.
Não, não estou a ser justo! Agustina consegue, em tão poucas e sóbrias palavras, sem se impor e sem passar por cima de ninguém, falar de tudo. Mesmo não falando em mim, em nós, em vós, deles e delas, vivos e mortos, deus e o diabo, estamos todos lá.
Todos!
Independentemente de nacionalidades ou crenças.
Não fala de Obama ou de Bush, do povo do Iraque ou das mulheres do Afeganistão, do Hamas ou da Al-Qaeda, de concretos corruptos ou de abstratos puritanos. Tão pouco refere os sem-abrigo da Índia ou do Paquistão, de mutilação genital ou da felicidade que é PIB no Butão. Mas eles, todos eles, pessoas ou conceitos, estão lá. Cada um de nós é obrigado a enfiar a carapuça perante a grandeza e o génio de Agustina Bessa-Luís.
Agustina Bessa-Luís não é Prémio Nobel de Literatura, nem disserta especificamente sobre Saramago mas, como não podia deixar de ser, ele também está lá. Agustina Bessa-Luís é, como Saramago, um Nobel. Mesmo sem prémio. Como sem prémio (Nobel) viveram e ainda vivem, uns ainda por cá, outros já bem longe das piedades terrenas, mestres da palavra e do nosso idioma. São tantos, meu deus! Eça de Queiroz, Fernando Pessoa, Jorge Amado, Manuel Bandeira, António Lobo Antunes, Cecília Meireles, Ondjaki, Luandino Vieira, José Craveirinha, José Régio, José Gomes Ferreira, Clarice Lispector, António Nobre, António Gedeão, Mia Couto, Sophia de Mello Breyner Andresen ou Urbano Tavares Rodrigues, para referir só alguns. Gostaria de referir todos, mas não posso. São tantos! É por gente deste calibre que eu tenho orgulho em me afirmar Português. É esta gente que me faz esquecer a crise económica, a partidocracia reinante, os abutres financeiros, os políticos corruptos, os comentadores políticos, a justiça indolente e todas as desgraças que assolam este Povo. Um Povo não se mede no PIB, como querem fazer crer os novos ventos liberais que ecoam neste Portugal da primeira década do século XXI.
Toda esta gente, nobelizada ou não, me mata de felicidade por ser Português. Todos eles são eternos em mim.
Mas hoje, por alguns minutos, é a Saramago que dou a primazia. Desculpem, mas tenho (muitas) saudades. É dele que quero falar, não que precise do meu verbo, mas porque me devolve a esperança por este País moribundo, tão crente em Deus e tão descrente em si próprio. E quem melhor que Agustina Bessa-Luís para o fazer em Dicionário Imperfeito. Ele não está lá, mas está. Parece que não é, mas é. Eternamente.
"Génio" (Dicionário Imperfeito, Agustina Bessa-Luís): O génio, que é a síntese da pessoa comum, que não se revela sem o patrocínio do mediador, deixa no espaço que ocupou em vida uma auréola do inacabado. É curioso observar que os artistas menores quase sempre deixam um rasto de testemunhos considerável. Enquanto que os indivíduos como Shakespeare, Camões ou Cervantes, Homero e Virgílio, ficam submersos numa bruma misteriosa. Isto acontece decerto porque se trata de pessoas saturninas, inclinadas à solidão e que se repudiam a fácil intimidade. «Estou sempre só e não falo com ninguém» - diz Miguel Ângelo.
"Génio Português" (Dicionário Imperfeito, Agustina Bessa-Luís): O menos conhecido e o mais subtil do génio português é esse jeito histriónico em permanente atuação. Não uma inclinação dramática, não a tendência à exibição; mas o natural como gesto de teatro puro. O natural é a mais fina interpretação do teatral.
"Escrever" (Dicionário Imperfeito, Agustina Bessa-Luís): Custa tanto escrever um bom livro como um mau livro; mas só merece respeito a Arte que é em nós uma imposição, um destino, um fogo inconsumível de espírito, ainda que a obra, relativa à nossa exigência, nos pareça medíocre.
"Escrever/Humildade" (Dicionário Imperfeito, Agustina Bessa-Luís): Chegamos a um tempo em que parecer-se louco é uma forma de distinção, as coisas honestas não têm crédito algum e as próprias letras tornaram-se uma espécie de ira. O homem vinga-se de si mesmo em tudo o que faz e, especialmente, em tudo o que escreve. Todavia, escrever é, ainda hoje, a única maneira de nos acomodarmos às coisas humildes. Nada há de tão humilde como a palavra, se é sincera. Porque a sinceridade não se afasta nunca duma ciência natural que não espera paga nem se presta à emulação. A criação literária, como toda a criação, é assunto sujeito à vaidade. por isso, não se eleva das suas impaciências.
"Escrever/Ideia" (Dicionário Imperfeito, Agustina Bessa-Luís): O escritor, desde os seus começos, tem que obedecer a uma ideia, que é a mesma pela vida fora. Não se desvia dela um passo; ela tiraniza-o, e obriga-o a tentar sempre a arte de a exprimir, cada vez mais calibrada pela sua própria consciência e mais instituída no seu estilo. Por isso, trinta anos de vida literária são um só dia. E um dia de trabalho é igual à eternidade das nossas tentativas para o mundo especial de todos os tempos.
"Escrever/Humildade" (Dicionário Imperfeito, Agustina Bessa-Luís): Escrever bem não é uma inovação. Tem uma razão de ser desproporcionada às necessidades de base, mas presta swerviços absolutamente fora de qualquer investimento ao nível do laser, por exemplo. Admitamos que não basta o humor e o talento para nos defendermos dessa poderosa mecânica que é o exílio a que as pessoas se condenam umas às outras. Admitamos. Mas «para que serve isto»? E continuamos a escrever.
"Escrever/Vocação" (Dicionário Imperfeito, Agustina Bessa-Luís): Em todas as vocações há descoberta; depois emprego e a seguir mestria. Quem quiser dizer palavras, não as escreva. A escrita é para quem deseja produzir memória e ser cuidadoso da sua eternidade. A língua portuguesa é a escada com que se chega às longas viagens da nossa identidade. Quer dizer: do coração coletivo da terra em que nascemos.
"Escritor Moderno" (Dicionário Imperfeito, Agustina Bessa-Luís): O escritor moderno é um estado civil, uma soma de papéis de identidade, um indivíduo em constante ato de repúdio frente ao homem.

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