Terça-feira, Setembro 07, 2010

RECADO A UM PRESIDENTE CEGO (II). EM MEMÓRIA DE JOSÉ SARAMAGO [16-11-1922 (Azinhaga, Golegã, Portugal):18-06-2010 (Lanzarote, Espanha)].

Ramalho Eanes, Mário Soares, Jorge Sampaio. Todos eles ocuparam o cargo de Presidente da República Portuguesa desde a implementação da democracia. Estiveram todos lá. Exceto ele, o atual Presidente da República Aníbal Cavaco Silva.
José Saramago morreu. Morreu apenas fisicamente, porque a obra e a alma (em que ele não acreditava) são eternos. Foi o único Prémio Nobel de Literatura que este País conheceu. Mais. Foi o único Prémio Nobel de Literatura da Língua Portuguesa. E ele não esteve lá. Esteve em férias com os netos como fez questão de alardear. Direito inquestionável, sem dúvida, mas um Presidente não exerce apenas direitos. Exerce sobretudo deveres constitucionais e cívicos. A presença oficial do Presidente da República nas exéquias fúnebres de José Saramago, não sendo certamente um dever constitucional, era seguramente um dever cívico e uma prova de respeito, senão para com o escritor, pelo menos para com o Povo que Saramago tão bem retratava, essa amálgama de gente tão esquecida pelo Poder mas tão lembrada em atos eleitorais.
Sabemos que Cavaco Silva não morria de amores por José Saramago. No tempo em que era Primeiro-Ministro, deu aval a que Sousa Lara, Sousa Lara, subsecretário de Estado da Cultura no XII Governo Constitucional (presidido por Cavaco Silva), impedisse a candidatura portuguesa do livro de José Saramago, O Evangelho segundo Jesus Cristo, ao Prémio Literário Europeu de 1992. Censura política no seu melhor, a recordar tempos que pensávamos desaparecidos para sempre.
Mas, duas décadas depois, este episódio já devia estar esquecido. E, se o senhor Presidente da República Aníbal Cavaco Silva não o esqueceu a título pessoal, deveria ter cumprido a sua obrigação e marcado presença pessoal (não apenas oficial) nas exéquias de um homem maior (mesmo que muito diferente do senhor Presidente) que legou à literatura e à língua portuguesa a façanha de um Prémio Nobel! Certo, a sua presença oficial poderia prestar-se a equívocos e a intrigas. Mas é isso um argumento de um homem de coragem? Para além dos equívocos está o dever para com (todos) os seus cidadãos e não apenas alguns. Alegar, como o fez, e as imagens televisivas demonstraram-no até à exaustão, que a sua ausência oficial se devia a ter programado umas férias em família, não só é pouco sensato, como é deselegante e uma afronta para com um Povo que, ainda atordoado pelo choque da notícia, vivia um luto oficial de três dias decretado pelo Estado Português. Compensou-nos, como Povo e como País (oficialmente) enlutado, a presença dos três Presidentes que antecederam Vossa Excelência.
Cavaco Silva escolheu exercer um direito pessoal, mesmo que esse direito contrarie uma obrigação de Estado (convenhamos, não chega enviar um emissário a um funeral de Estado de um homem que cantou e escreveu Portugal aos quatro cantos do mundo). Para além da presença de todos os anteriores Presidentes de República da democracia portuguesa, Cavaco Silva, em viagem oficial a Cabo Verde pouco depois da morte do escritor, foi obrigado a ouvir aquilo que parece não sentir, e a sentir por três vezes os aplausos em pé de todos os deputados da Assembleia Nacional do País irmão (dirigidos, obviamente a Saramago e, em consequência a Portugal e, talvez, também ao Presidente Cavaco Silva. Aplausos que soaram a farpas e, apesar de toda a delicadeza diplomática para com o Presidente dos Portugueses, os aplausos e as referências a Saramago foram um risco político calculado pelas autoridades caboverdianas. Era difícil falar de Saramago perante um Presidente hostil, mas era imperioso realçar a sua grandeza como símbolo da Portugalidade. Deste conflito saiu o equilíbrio em que, sem deixar de dizer o que tinha de ser dito, procurou-se não hostilizar Cavaco Silva. Os fortes deviam ser mais justos e os justos deviam ser mais fortes, foi uma das frases de Saramago que Cavaco Silva foi obrigado a escutar na visita de Estado. Tal como teve de escutar a homenagem muito sentida do anfitrião, Presidente Pedro Pires, que referiu a inteligência premonitória e a capacidade de recriação da escrita em português por parte de Saramago. A sentida homenagem dos caboverdianos não tem nada de surpreendente; Saramago era muito acarinhado em Cabo Verde (e em todo o mundo, exceto talvez Portugal). De certa forma faz parte da história cultural de Cabo Verde, não só por partilhar o idioma comum mas também por, em tão poucas palavras, ter caracterizado toda a essência da caboverdianidade, referindo-a como uma cultura (um Povo) que Fabrica o seu próprio chão, inventa a sua própria água, repete dia-a-dia a criação do mundo.
Criação do mundo, leva-nos a deus (ou talvez não, como acaba de afirmar há dias Stephen Hawkings, o génio da física quântica que sugere e demonstra que singularidades como o Big Bang podem ser autoconcebidas pelas leis do Universo). Não elimina deus, é certo, mas redu-lo a uma mera probabilidade. E deus leva-nos às palavras premonitórias de Saramago A morte é a inventora de Deus ou, mais acutilante ainda, Deus é o silêncio do universo e o ser humano o grito que dá sentido a esse silêncio. E, apesar da grandeza da ideia de deus, e da grandeza ainda maior que é a realidade humana que o concebeu, falar nele leva-nos, por outro lado, também a lembrar a pequenez, a soberba e a estupidez humana supostamente por ele criadas. Parafraseando, de novo, Saramago, o cérebro humano é um grande criador de absurdo e Deus é o maior deles, e, por transitividade e redução ao absurdo, quod erat demonstrandum, somos finalmente conduzidos a Sousa Lara, uma singularidade muito peculiar.
Porquê Sousa Lara? Vamos por partes. Sousa Lara pode ser um excelente professor de Ciência Política, até porque mérito não lhe deve faltar, ou não fosse Professor Catedrático do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas e membro do Senado da Universidade Técnica de Lisboa. Títulos não lhe faltam, tal como não lhe falta o anacrónico título aristocrático que o bigode à D. Carlos que ostenta não deixa enganar. Mas, por muitos títulos (uns de mérito, outros de genes) que detenha, será sempre um homúnculo político que a história se encarregará de apagar. Só não apagará a sua natureza censória, demonstrada por factos e omissões no longínquo ano de 1992, quando impediu, por razões políticas e por razões pessoais subjetivas, a prevalência da arte e da cultura sobre a mesquinhez político-ideológica e o ego exacerbado de um governante menor. O ano de 1992 marca um antes e um depois na vida de José Saramago e a causa está no histerismo ideológico de Sousa Lara (e no silêncio de Cavaco Silva, demasiado astuto para dar a cara). Nestas coisas pagam os menores e, convenhamos, no XII Governo Constitucional, Sousa Lara, um mero subsecretário de Estado era o menor e Cavaco Silva, então Primeiro-Ministro, o maior.
Recordemos o que já foi dito atrás. Em 1992, o então subsecretário de Estado da Cultura Sousa Lara impede a candidatura portuguesa do livro de José Saramago O Evangelho segundo Jesus Cristo, ao Prémio Literário Europeu desse ano.
As razões para censurar (porque é disso que ostensivamente se trata) a candidatura de Saramago ao referido prémio apresentou-as Sousa Lara no debate sobre a Cultura na Assembleia da República (AR) em abril de 1992: Porque não representa Portugal, e porque a obra atacou princípios que têm a ver com o património religioso dos portugueses. Longe de os unir, dividiu-os. Como se o objetivo da arte fosse unir em vez de apelar à diversidade de perspetivas! A obra, que gerou polémica na época e deixou atordoada a Igreja Católica em Portugal, (mal) habituada pela excessiva reverência (e convivência) com o antigo regime do Estado Novo e pouco dada a críticas aos seus dogmas, foi pois preterida. Para dar um ar racional à decisão, Sousa Lara lá foi dizendo, como se isso adiantasse de algo, que Esta minha atitude nada tem a ver com estratégias de venda, nem sequer com opções literárias. E muito menos com as escolhas políticas de Saramago. Não entrou em linha de conta o facto de ele ser comunista ou pertencer à Frente Nacional para a Defesa da Cultura.
Sem saber, Lara deu um enorme tiro no pé desprestigiando-se a si próprio (o cognome de censurador ficar-lhe-á para sempre) e, sobretudo, desprestigiando a então (ainda) jovem democracia portuguesa: o seu lápis vermelho provocou uma enorme polémica que se fez eco em toda a Europa civilizada onde a democracia não é palavra vã e a opinião pública é um ator de direito e de facto. Pressionado, mesmo que diga que não, Sousa Lara foi obrigado a demitir-se e José Saramago fez malas e partiu, de vez, para a ilha espanhola de Lanzarote. Mais tarde, em 1998, José Saramago ganhava o Prémio Nobel de Literatura. Palavras para quê? Sousa Lara, doutoral e arrogante como sempre, manteve a sua posição até ao fim, mas perdeu credibilidade política e ética. Possivelmente Sousa Lara nem terá lido a obra em questão (se a tivesse lido jamais teria tido o mau gosto de referir que a obra não estava bem escrita, quem sabe referindo-se à pontuação livre de Saramago) e terá reagido com a decisão estapafúrdia de 1992 mais por envolvimento com o lóbi da Igreja Católica e dos setores mais conservadores da sociedade de então do que por capacidade literária de avaliação da obra.
Se dúvidas houvesse quanto ao envolvimento de Cavaco Silva na questão, Sousa Lara desfê-las mais tarde em entrevista à TSF a 15 de abril de 2004 quase em jeito de ameaça (como se tivesse relevância política para tal): É bom que o atual primeiro-ministro [na época Durão Barroso, do PSD] se lembre que Cavaco Silva se ofereceu para me dar cobertura política durante a crise. Recusei porque isso acabaria por se voltar contra Cavaco Silva. Na sua ótica, Durão Barroso (que também integrava o referido Governo censurador) não se deveria sentir mal por uma decisão com a qual nada teve que ver. Não? Sousa Lara, míope político por excelência, não percebia que a atitude de Durão Barroso estava longe de ser ingénua e muito menos era politicamente pura. Na verdade, a Durão Barroso interessava a détente e só não vê quem está demasiado limitado pelas suas crenças autofágicas. Caramba, afinal o homem era, e continua a ser, o único laureado de língua portuguesa pelo Prémio Nobel de Literatura! A miopía de Sousa Lara não é invenção quixotesca, é mesmo factual, como demonstra, ele próprio, igual a si mesmo e agarrado às suas limitações de humanidade pretensamente cristã (ou católica, como ele diz), na entrevista à TSF: Não percebo qual é a vantagem disto, mas se o senhor Saramago fica contente e isto ajuda a enterrar os machados de guerra ou se é útil para alguma coisa, por mim não se passa nada. Não sou a favor do pântano. O que me chateia mais na política é a indefinição de fronteiras, gosto mais da política com fronteiras, com clivagens e opções de escolha claras, mas pelos vistos isto está fora de moda. Fora de moda, pois está (a monarquia já acabou há 100 anos e há gente que só vê o que quer ver).
Sousa Lara, em hora feliz politicamente fora de moda - porque a política, e não o estar na política, esse modismo pós muro de Berlim, exige convicção -, ainda hoje, em pleno século XXI, garante que voltaria novamente a vetar o livro se fosse confrontado com a decisão de autorizar uma candidatura a um prémio literário, reagia dessa forma ao clima de détente que o então primeiro-ministro Durão Barroso, certamente politicamente mais lúcido que Lara, procurava, em definitivo, cimentar. Na ótica do douto Sousa Lara, a atitude de reconhecimento de um erro e de uma injustiça por parte de Durão Barroso para com José Saramago, nao caía bem e era coisa que não entendia. Douto em literatura, Lara dizia mais do mesmo: Se [Saramago] tivesse escrito bem sobre Cristo, ficava-lhes bem, agora aquela obra sobre Jesus Cristo não lhes fica bem, com certeza.
No próprio dia da morte de Saramago, o sábio e cristão Sousa Lara dizia à estação radiofónica Antena 1A morte de qualquer pessoa é sempre triste, não é, porque as pessoas, não me posso congratular, nem me congratulo naturalmente com a morte de ninguém, não é, sobretudo enfim uma pessoa com o perfil do senhor José Saramago, enfim, como sou católico e acredito na vida além da morte tenho sempre muito medo que as pessoas que cometem determinados atos, enfim, tenham depois um julgamento mais pesado mesmo que acreditem que não existe nada a seguir. Com a religião não se brinca, mais a mais com a religião maioritária do Povo Português e, portanto, isso não tem negociação possível. Um senhor que escreve o que este senhor resolveu escrever, e é reincidente, que este livro Caim ainda é mais agressivo. Uma pessoa que faz isto está à espera que um Governo de direita o proponha para o Prémio Europeu da Literatura? Nem a brincar! Eu acho que nem a brincar, não percebo como é que as pessoas ficam espantadas com a minha atitude! Deviam ficar espantadas se eu fizesse o contrário!. Todo este desastroso discurso no próprio dia da morte de José Saramago! Um discurso arrogante e mal falante, pobre de conteúdo, julgador (esse hábito parece que fatalmente persegue o senhor Sousa Lara), um vil atentado à cristandade que apregoa. Vossa Excelência está equivocado, Vossa Excelência não é cristão, Vossa Excelência julga-se cristão!
Se dúvidas houvesse quanto à sensibilidade cristã e à honestidade intelectual do senhor Sousa Lara esta entrevista desfazia qualquer equívoco. O senhor Lara usa muitas palavras nesta entrevista. Reparo em particular em palavras como medo, Governo de direita, reincidente, agressivo, brincar. Repara-se ainda como o senhor Sousa Lara tem um discurso tão, sei lá (como essa gente aristocrática gosta de dizer), revelador de pequenez, agora não só pequenez política, mas também pequenez humana. Definitivamente, este senhor não aprendeu com o tempo, e para quem não aprende (e, pior, não quer aprender) há autores que, como Saramago (mas não só), magnificamente os caracterizam. Basta ler e gostar de ler para ver como este senhor está lá devidamente caricaturado!
Vamos a factos, para terminar esta dissertação sobre um homem tão pequeno.
Na entrevista à Antena 1 o senhor Sousa Lara mostra que é medroso: tenho sempre muito medo que as pessoas que cometem determinados atos, enfim, tenham depois um julgamento mais pesado mesmo que acreditem que não existe nada a seguir. Mas que atos cometeu Saramago que mereçam este medo hipocritamente piedoso do senhor Lara? Saramago matou? Saramago roubou? Não! Saramago escreveu O Evangelho Segundo Jesus Cristo e Caim e, na ótica de Lara, Saramago está condenado às trevas e ao castigo julgador de deus. Não percebe o senhor Lara que, se deus de facto existir, tem Saramago junto de si, tão perto de si como jamais o senhor Lara (que foi julgador na Terra) alcançará! Deus, a existir (e esse acontecimento é só uma probabilidade científica que a fé faz o milagre de encarar como uma certeza) decerto quererá do seu lado outros criadores. Deus, a existir, ri-se dos demagogos e fundamentalistas, sejam eles judaico-cristãos, islâmicos ou muçulmanos. Deus, a existir, valora aqueles que dele se aproximam pelo ato de criação. Deus, a existr, tem junto de si Mozart, Bethoven, Hemingway, Jorge Amado. Deus, a existir, deplora as guerras santas de Bush (outro homem que, tal como Sousa Lara, tinha um ego descomunal, embora um poder incomensuravelmente maior), as Fatahs, as cabalas, a Al-Qaeda e outros julgadores. Deus, a existir, detesta outros julgadores pois fazem-lhe concorrência. Deus detesta o contraditório. Os julgadores terrenos, especialmente os vingativos e intolerantes, não terão lugar junto do deus que tanto veneram (ou temem, como Sousa Lara assumiu) ou, se o tiverem, esse acontecimento reduz-se a uma mera probabilidade que, por sua vez, depende da probabilidade da existência de deus. Probabilidade condicionada, Bayes no seu melhor (quem diria, esta relação entre Bayes e deus)!
Diz ainda o referido senhor que Com a religião não se brinca, mais a mais com a religião maioritária do Povo Português e, portanto, isso não tem negociação possível. Saramago é um brincalhão aos olhos do senhor Lara, ex-secretário de Estado da Culura do senhor Cavaco Silva e, como convém na economia de mercado tão cara aos governos de direita, não há negociação possível. Negociar o quê? Mas então, reconhecer o valor da arte, é fruto de negociação? Lara afirma ter feito parte de um governo de direita liderado por Cavaco Silva. Ótimo, eu estava indeciso mas, definitivamente, o senhor Lara tirou-me as dúvidas. Afinal, Cavaco Silva, que ainda é Presidente de Portugal e ainda não se assumiu como candidato a Presidente da República no próximo ato eleitoral de 2011 (alimentando assim mais um dos seus tabus para render votos), ao contrário do que certamente procurará transmitir quando se afirmar como candidato candidato abrangente de ideias (e não de ideologias), não terá o meu voto pois o senhor Lara catalogou-o como homem de direita.
Usa o senhor Lara, muito ao jeito de ditaduras como a China e a Coreia do Norte, mas sem o poder de Hu Jintao e de Kim Jong-il, a palavra "reincidente". Talvez aqui Sousa Lara tenha acertado (mas sem o perceber, como seria de esperar). Reincidente aplica-se a Saramago por este teimar em escrever até ao fim da sua vida, com tanta convicção que escapou da morte em 2007 para terminar A Viagem do Elefante (talvez, quem sabe, um desígnio ou um capricho do deus de Sousa Lara, rendendo-se ao génio do escritor fazendo-o escapar da morte para a produção de mais uma obra). Terá lido o sábio senhor As Intermitências da Morte? Aprenderia uma coisa que não sabe: que o amor, mesmo o amor impossível, também faz milagres.
Senhor Sousa Lara, Senhor Cavaco Silva: Vossas Excelências serão em breve esquecidas. Não se equivoquem! O tempo passa rápido, muito rápido! Ainda ontem eramos monarquia, senhor Lara, lembra-se? Ainda ontem o senhor Presidente apregoava a Cooperação Estratégica, hoje age em Oposição Estratégica. E, meus caros senhores, não tenhais ilusões, ao tempo, poucos sobrevivem. Ao contrário do que o senhor Sousa Lara diz, Saramago não era um homem qualquer (A morte de qualquer pessoa é sempre triste, não é, porque as pessoas, não me posso congratular, nem me congratulo naturalmente com a morte de ninguém). O senhor Presidente da República constará, certamente, dos anais da história mas, daqui a 20, 30, 50, ou 100 anos, será uma mera estatística da história da República Portuguesa. Será, talvez, quem sabe, nome de rua ou avenida, o seu retrato constará com todo o mérito no Museu da Presidência, mas ninguém o relembrará como eterno. A eternidade envolve genialidade e não apenas obsessão pelos números! O senhor Sousa Lara, bem, por muito que me custe ficará na história, mas pelos piores motivos. Será recordado sem convicção, sem alma, sem entendimento. Já Saramago, meus senhores, será sentido e recordado como um dos nomes maiores da literatura em língua portuguesa. Ironia das ironias: Saramago, o ateu militante, o materialista metafísico, esse viverá eternamente. Presidentes e Ministros (ou simples Subsecretários de Estado da Cultura), Reis e Raínhas, Papas, Bispos e Cardeais esses contentem-se com a fogosidade temporária desta vida que vivem. Depois, serão meras estatísticas. Numa palavra, estarão mortos, senhores! Leiam, meus senhores, leiam! Eu sei que o Professor Cavaco Silva é pouco dado às leituras (como fez questão de afirmar há 20 anos atrás) e até crê que raramente se engana (como estava errado meu senhor, ou não tivesse exercido o prestigiado cargo de Presidente da República com tantos equívocos e tanta intriga palaciana (a psicose das escutas, os seus recados de cartilha dirigidos não se sabe bem a quem, lembra-se, senhor?)).
Caros senhores, conhecem Jorge de Sena? Sim, também ele foi um escritor banido da ortodoxia fascista e teologicamente militante. Conhecem Camões dirige-se aos Seus Contemporâneos? Dedico-o a Vós, ilustres senhores da verdade, pois nessas palavras de Jorge de Sena Vossas Excelências são os personagens principais. Leiam meus senhores e, por vezes, deem-se ao benefício da dúvida (mesmo que raramente tenham dúvidas e raramente se senganem).
Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens;
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.
(Jorge de Sena, Camões Dirige-se aos Seus Contemporâneos;
Metamorfoses (1963))

E Álvaro de Campos, senhores? Um Poema em Linha Reta também se vos aplica! Aprendei como a glória é efémera e a humildade soberana!
Não julgueis, não castreis, não vos julgueis acima dos vis, dos pecadores e dos ridículos! Sede menos que sereis mais. Aprendei senhores! Lede! Ousai duvidar! Não tenhais tantas certezas! Ousai não julgar! Ousai não condenar! Referenciai menos Cristo e agi mais como ele! Deixai-o ser humano e descansar!

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
(Álvaro de Campos, Poema em Linha Reta; Poesias (1944)).

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